Travou-se no STF o confronto entre a razão e a fé no julgamento da constitucionalidade da pesquisa médica, utilizando células-tronco; no caso, células destacadas de embriões descartáveis. A ciência, no conceito e postulados diretores, tem apenas cinco séculos, medidos a partir de Galileu. As descobertas de Aristóteles na história natural, as geométricas estabelecidas por Euclides, as leis da mecânica proclamadas por Arquimedes constituem os prolegômenos da sistematização científica que se fundamente na prova experimental, no princípio diretor da autocorreção e da impessoalidade do pesquisador. A crença religiosa prescinde de comprovação e apóia-se em autoridade inconcussa.Basta-lhe acreditar na autoridade de um compêndio, vindo da prescrição divina e captado por um privilegiado intérprete, vetusto e inalcançável na penumbra do passado. O crente não questiona por que a divindade nunca mais se manifestou, não mais faz milagres... Daí entender a perseguição sofrida pelo pensamento laico da parte das instituições religiosas. Desde a condenação de Sócrates, o escarmento de Giordano Bruno à fogueira pelo "crime" de contrariar a Bíblia no quesito da "terra imóvel iluminada pelo sol rotativo"; a tortura moral contra o octogenário Galileu Galilei, constringindo-o a abdicar suas idéias ou enfrentar a fogueira inquisitorial; as centenas de torturados e mortos, de mulheres consumidas nas fogueiras acusadas de "bruxaria" pela vontade do bispo Torquemada na Espanha medieval. O pretexto: "salvar a fé". E o torniquete do sanhedrim aplicado a Spinoza? Ora, pode-se de sã consciência aceitar que pessoas herdeiras das mesmas crenças deístas venham antepor barreiras à pesquisa científica em prol da vida, à superação da doença e do sofrimento, à correção de traumas físicos, por nascença ou acidente? Com que superioridade moral podem se apresentar aqueles que acreditam em Adão e Eva, ressurreição de mortos, anjos esvoaçantes, demônios de cauda, para ditar normas de conduta aos homens de ciência?É muita petulância.Felizmente, as religiões perderam a força e o poder de impor sua vontade política. A cada conquista científica elas recuam. Esta a razão de sua resistência a desmistificação do fenômeno vital. O potencial da célula-tronco de produzir qualquer tecido - olhos, rins, coração - , sob comando e controle da autoridade científica, elidirá mais outra crendice do "perfeccionismo" divino. A razão assume a autoridade histórica do conhecimento, consolida a ética racional, cala a superstição presunçosa e maléfica, há séculos responsável por tantos crimes contra a inteligência e sofrimentos da humanidade.O homem não se distingue dos outros seres vivos, animais ou vegetais, no espalmar da árvore genealógica da vida. É apenas um dos brotos extremos. O homem atual é um entre uma dezena de hominídeos que desenvolveram a inteligência e sucumbiram na esteira de milhões de anos pela seleção natural. Da ameba à célula de uma ervilha, ao córtex cerebral do chimpanzé e ao nosso, encontra-se o mesmo princípio estrutural do DNA.Não somos seres sacralizados por desígnios divinos. Somos seres indefesos, navegantes num planeta minúsculo, rodopiando em torno de uma estrela de quarta grandeza na excentricidade de um galáxia extraviada entre bilhões, que se afastam umas de outras a velocidades crescentes na escala logarítmica, indiferentes ao acidente cósmico do homem.
*Escritor
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