PEQUENAS CONSIDERAÇÕES
SOBRE
AUGUSTE COMTE E O POSITIVISMO
Arthur Aveline
Membro
do Apostolado Positivista de Porto Alegre
Para entender
perfeitamente o surgimento do Positivismo, também conhecido como Religião da
Humanidade, é importante que se faça uma pequena retrospectiva cronológica para
que se entenda o contexto histórico em que viveu Auguste Comte, seu idealizador.
Em 14 julho de
1989 acontece a Queda da Bastilha, dando início à Revolução Francesa. De 1789 a
1791 reúne-se a Assembleia Constituinte, e em 22 de setembro de 1792 é
proclamada a 1ª República. Em 21 de janeiro de 1793 Louis XVI é guilhotinado no
exato local onde hoje está localizado o Obelisco do Templo de Luxor, na Place
de la Concorde, em Paris.
Em setembro de
1793 instaura-se o Terror, período que se estende até julho de 1794. Nesses 10
meses mais de 3 mil pessoas são guilhotinadas. Sob a liderança de Robespierre
uma nova Constituição é proclamada, mas a 9 de novembro de 1799 inicia-se a
ditadura de Napoleão Bonaparte, como o golpe do 18 Brumário, assim chamado por
ter ocorrido no dia 18 do mês do Brumário do ano IV (09.11.1799 no calendário
gregoriano).
Bonaparte se
faz proclamar Napoleão I, Imperador da França, no dia 2 de dezembro de 1804, na
catedral Notre-Dame de Paris, com a presença do Papa Pio VII. A vitória em
Austerlitz ocorre um ano depois, em 2 de dezembro de 1805 e a derrota em
Waterllo em 18 de junho de 1815. Com a queda de Napoleão, os Bourbon
reivindicam o trono e com a posse de Louis XVIII, irmão de Louis XVI, acontece
a Restauração, deposto pela Revolução de julho de 1830, quando assume o trono
Louis Philippe, Duque d’Orléans, permanecendo no poder até janeiro de 1848,
quando é proclamada a 2ª República, que tem como Presidente Louis Napoleão
Bonaparte, neto de Napoleão I. Em 2 de dezembro de 1852 ele consolida seu poder
e é coroado Napoleão III, dando início ao 2º Império, que dura até 4 de setembro
de 1870, quando é instaurada a 3ª República.
Nesse contexto
histórico nasce e vive Auguste Comte, nascido em Montpellier aos 19 de janeiro
de 1798 e falecido em Paris, aos 59 anos, no dia 5 de setembro de 1857.
Ainda muito
jovem, Auguste Comte empreende sua busca filosófica na ânsia de reformar a
sociedade, através da criação e elaboração de um novo estatuto político e
social.
Como se viu, a
partir de 1789, com a Revolução Francesa, vários regimes políticos se sucederam
na França, favorecendo o surgimento de um sentimento geral de desordem que se
tornava ainda mais relevante na medida em que essa anarquia sucedia a vários
séculos de uma monarquia absoluta e autocrática. Em função disso havia na
sociedade mais esclarecida um desejo muito grande pela normalização da
sociedade, que só viria se houvesse paz e estabilidade social. A burguesia
exigia e necessitava de ordem nos campos político e econômico.
Foi por esse
desejo de organizar uma reforma social, necessária diante dos novos paradigmas
surgidos a partir da Revolução Francesa, que Auguste Comte empreendeu sua busca
por alguma fórmula capaz de sistematizar uma ciência da sociedade, permitindo
estabelecê-la de forma definitiva.
Comte entendia
que a Revolução Francesa tinha cumprido com o seu papel de acabar com as
antigas instituições sociais e políticas, que eram ainda teológicas, e por isso
não correspondiam mais às necessidades sociais impostas pelo estágio de
desenvolvimento das ciências atingido pela Humanidade à época. Todavia, ele
também percebeu que a Revolução ao derrubar o Antigo Regime não ofereceu opções
para a reorganização da sociedade, sendo então necessária a instauração do
espírito positivo na nova organização social e política. Para isso, seria
necessário que emergisse uma nova elite científico-industrial, capaz de
formular os fundamentos positivos da sociedade e desenvolver as atividades
técnicas correspondentes a cada uma das ciências, tornando-as um bem comum.
Auguste Comte começa seu trabalho retomando as ciências, uma por uma,
classificando aquelas que lhe interessam e que ele considera as mais
importantes nessa tarefa: matemática, astronomia, física, química e biologia,
para fundar, finalmente, o que ele chamou de “Física Social” e que mais tarde
passou a se chamar Sociologia. Cada uma dessas ciências trouxe algo para o
método positivista. A matemática contribuiu com o rigor, a precisão e a análise
como instrumento de reflexão. A Astronomia trouxe, principalmente, a elaboração
de métodos de observação. A Física veio com a formulação de métodos de
experiência e de experimentação. Para Auguste Comte a Química refinou esses
métodos e acrescentou algo muito importante, que é a catalogação; um dos
primeiros métodos de classificação que foram mais tarde desenvolvidos, aperfeiçoados
e aprofundados pela Biologia, que teria contribuído, também, com o estudo
comparativo. Dessa forma, a ciência que faltava ser estabelecida, a “Física
Social” ou a “Sociologia”, estava destinada a se beneficiar dos conhecimentos
adquiridos pelas ciências precedentes, permitindo sua relação com a História.
Para que fosse
possível formar devidamente essa nova elite científico-industrial idealizada, Auguste
Comte passou a defender a ideia, inovadora para a época, de que todos devem ter
um nível mínimo de conhecimentos para que a sociedade possa se desenvolver
plenamente, de forma que todas as unidades da sociedade, que são os indivíduos,
possam efetivamente participar da ação coletiva. Entendia ele, com razão, que o
melhor jeito para efetivar essa participação é proporcionando às pessoas,
indistintamente, um campo amplo de conhecimentos, advindo de uma base
educacional comum. Ele propõe, então, a criação de uma biblioteca Universal, capaz
de abarcar o máximo possível do conhecimento até então armazenado pela
Humanidade. Todavia, um problema se apresentava para a concretização desse
ideal, a dificuldade de acesso às obras contendo a cultura e o conhecimento
orientais, uma vez que a sociedade francesa na época, era muito marcada quase
que exclusivamente pela cultura ocidental, já que havia uma espécie de
etnocentrismo ocidental. Ele preconizava o estudo das mais diferentes culturas,
pois era necessário que a cultura mínima suficiente que todos deveriam ter,
fosse eclética e Universal. Com a ascensão da Burguesia veio o desenvolvimento
industrial e o surgimento de uma nova classe, o proletariado. Auguste Comte
defendia que o proletariado, tanto quanto as demais classes sociais e
econômicas, também tinha direito ao acesso a essa cultura e esta foi uma de
suas grandes causas. Comte foi sensibilizado por essa questão do proletariado
ainda jovem, no tempo em que foi secretário de Saint Simon. Saint Simon
(1760/1825) era um filósofo e economista francês que defendia a ideia de que o
desenvolvimento industrial representava um grande salto para a Humanidade, mas
que, ao mesmo tempo, a sociedade industrial dera origem a uma nova classe de
trabalhadores que era oprimida pela classe dos empreendedores e chamada por ele
de “a classe mais numerosa e mais infeliz”. Saint Simon ficou conhecido por ser
um dos fundadores do socialismo moderno e um teórico do socialismo utópico. A
posição de Comte não era uma posição revolucionária. Enquanto Saint Simon,
assim como Marx, entendia que somente com a luta de classes seria possível a
emancipação do proletariado, Comte considerava que todas as medidas sociais
deveriam ser julgadas em termos de seus efeitos sobre a classe mais numerosa e
mais pobre. Dessa forma, ele acreditava que os proletários e as mulheres poderiam
abrandar o egoísmo dos capitalistas e que uma nova ordem moral humanitária
poderia, ao final, abolir todos os conflitos de classes. Para Comte o
capitalismo precisa ser moralizado, e não eliminado. A propriedade privada
precisa ser mantida para que a sociedade mantenha sua estrutura moral e
consequentemente, seu desenvolvimento.
Auguste Comte
e Saint Simon, no entanto, criticavam os responsáveis pela economia liberal que
estava nascendo naquela época. Eles tinham a convicção de que a não intervenção
na economia, pregada pelos liberais, era uma catástrofe sob o ponto de vista
social. O Estado, para Comte, deveria intervir e regular as relações entre o
Patriciado e o Proletariado, duas classes sociais distintas, mas dependentes,
uma da outra, que deveriam, justamente por isso, valorizar relações de
cooperação, abolindo a luta de classes, preconizada por Marx e Saint Simon. A
ligação intelectual com Saint Simon terminou de forma tempestuosa, da mesma
forma como aconteceu em quase todas as relações pessoais de Comte. O rompimento
ocorreu quando o discípulo começou a sentir-se independente do mestre e suas
ideias cada vez mais inconciliáveis com as de Saint Simon. A separação entre os
dois se deu em 1824, um ano antes da morte de Saint Simon. Neste mesmo ano, Comte
casou-se com Caroline Massin.
Sem seu
salário de secretário de Saint Simon, Comte passou a dar aulas de matemática em
sua própria residência. Dois anos depois, em 1826, iniciou, também em sua
residência, um curso de Filosofia Positiva, interrompido logo em seguida, na
sua terceira aula, em função de uma séria crise depressiva que, ao seu final,
resultou em uma de suas principais obras, o Curso de Filosofia Positiva,
publicado em 1830 com seis volumes. Foi após a publicação do seu Curso de
Filosofia Positiva que Comte se engajou pessoalmente na causa que o motivara em
sua juventude, quando ainda era secretário de Saint Simon: a instrução do
proletariado. Visando a instrução integral do proletariado, Auguste Comte criou
e formou uma biblioteca universal, que se encontra até hoje na Maison Auguste
Comte, em Paris. Era o que ele chamava de “Biblioteca do Proletário”, que para
ele tinha um caráter sagrado. Paralelo a isso, iniciou, também em 1830, seus
famosos cursos gratuitos politécnicos para os proletários na prefeitura do 12º
distrito em Paris. A maioria das pessoas que assistiam a essas aulas
regularmente eram operários. Por 18 anos as aulas foram ministradas
regularmente, todos os domingos à tarde, de 1830 até 1848, ano em que foi
fundada a “Sociedade Positivista” juntamente com 25 ou 30 dos discípulos mais
próximos dele.
No plano
pessoal, no entanto, Auguste Comte passava por sérias turbulências. A partir de
1838, talvez em função da depressão, as suas relações com a esposa começaram a
ficar totalmente desgastadas, o que resultou em sua separação definitiva em
1842. Dois anos depois da separação Comte publicou o seu Discurso sobre o Espírito Positivo.
Em 1845 Comte
conheceu a mulher que viria a mudar completamente sua vida, dando nova
orientação ao seu pensamento: Clotilde de Vaux. Clotilde de Vaux era esposa de
Amedeé de Vaux que, em 1839, a abandonou a fim de fugir para Bruxelas em função
de dívidas de jogo. Abandonada e sem recurosos, impedida pela lei de divorciar-se de modo a contrair novas núpcias, Clotilde publicou, em 1845, a novela "Lucie", em que a personagem principal vive uma situação semelhante à sua, com o objetivo de sensibilizar a opinião pública, propondo a mudança da lei e a introdução do divórcio na legislação francesa. Sem conseguir seu intento, ainda nesse ano de 1845, e nessas
circunstâncias desfavoráveis, conheceu o filósofo Auguste Comte que,
posteriormente, consideraria por essa razão o ano de 1845 como "o ano
sem par". Clotilde, todavia, por estar ainda legalmente casada,
nunca permitiu que suas relações com o filósofo fossem além de uma amizade
íntima. Comte, por sua vez, apaixonou-se completamente por Clotilde, e
alimentou esse seu amor platônico até o final da vida. Apenas um ano depois de
conhecerem-se, Clotilde falece em função de uma tuberculose.
Esse fato foi
de fundamental importância para a obra de Comte. Foi apenas a partir da morte
de Clotilde de Vaux que Comte passou a considerar a ideia de estender os ideais
de uma filosofia Positiva para uma Religião Positiva. Clotilde de Vaux, foi transformada
na sua musa, a musa inspiradora de uma nova religião, cujas ideias centrais
estão na sua extensa obra, publicada em quatro volumes, entre 1851 e 1854, e
intitulada “Política Positiva ou Tratado
de Sociologia instituindo a Religião da Humanidade”. Em 1852 Comte publica
o Catecismo Positivista ou Exposição
Sumária da Religião Universal. Para esse trabalho, preparou-se fazendo o
que ele chamou de “higiene cerebral”, que consistia na abstenção de quaisquer
leituras e um aprofundamento da meditação solitária, com o intuito de afastar
influências de elementos perturbadores, a fim de assegurar unidade ao projeto
de constituição das doutrinas da nova religião.
Auguste Comte, em seus estudos e meditações,
percebeu que cada saber ou conhecimento passa por três estados sucessivos:
primeiro o estado teológico, depois o estado metafísico e por fim o estado
positivo. Auguste Comte diz que esta passagem pelos três estados sucessivos se
trata de uma lei, de um padrão único que parece se repetir inúmeras vezes na
História. Comte define o estado teológico como sendo uma grande interrogação
sobre as causas dos fenômenos, que são atribuídas a deuses que seriam os
instigadores ou produtores dos fenômenos. Superado este estágio, chega-se ao estado
metafísico, que nada mais é do que uma espécie de variação do estado teológico,
com o mesmo tipo de pensamento, porém mais abstrato. Mesmo que as causas
fenomenológicas não venham a ser atribuída aos deuses, a imaginação da fé ainda
domina a razão e alguma explicação metafísica, ou seja, fora da física, é
buscada. Quando finalmente se passa para o estado positivista ocorre então uma
verdadeira revolução no método, que consiste não mais na fé ou na crença em deuses
instigadores ou produtores dos fenômenos, mas na preponderância da observação
científica. Ao invés de se perguntar porque
acontece tal fenômeno, no estado positivista pergunta-se simplesmente como as coisas acontecem. É justamente
a mudança da interrogação, do porquê
para o como, que caracteriza o
estado positivista. Nas palavras de Comte, é a passagem da busca das causas à
busca das leis, ou seja, as regras pelas quais se regem as coisas, as pessoas e
inclusive o Universo. Com isso ocorre uma real mudança de estado de espírito.
Auguste Comte entende que essa “lei dos três estados” pode ser verificada em
todos os campos do conhecimento.
Em sua
classificação das ciências, Auguste Comte colocou as Ciências Humanas acima de
todas as outras. Foi mais longe, disse que o homem, enquanto indivíduo, não
existe, somente a Humanidade existe; somente através de um fato social que
reúna ao redor de si os homens é que se pode observar o indivíduo.
Consequentemente, na concepção de Comte o homem é uma completa abstração, por
ser produto do fenômeno social.
O
estabelecimento dos princípios fundamentais da nova religião, cuja ideia
central reside no advento definitivo do estado positivista com a substituição
de um deus teológico pela Humanidade, se deu apenas nos últimos 15 anos de sua
vida. Foi nesse período que ele formulou um novo calendário, cujos meses, em
número de 13, receberam o nome de grandes vultos da Humanidade e da História do
Pensamento. Clotilde de Vaux é inserida nesse contexto, simbolizando o amor,
princípio básico da Religião da Humanidade.
A Religião
Positiva nada mais é do que a vida real sem o sobrenatural, sem milagres e sem santos.
Não é nada mais do que um sistema de educação, estabelecido pela lei dos três
estados. O mundo naturalmente caminha para uma realidade em que a visão
científica tende a orientar as pessoas e quando isso se tornar uma realidade
universal, estaremos vivendo no estado positivista. As pessoas atualmente, no
seu dia-a-dia, tendem a pensar cientificamente, procuram saber COMO as coisas
funcionam. Só não estamos ainda totalmente no estado positivista, onde reina a
Razão e o Pensamento Científico, porque antigos e ancestrais medos e crendices
ainda teimam em existir, mas a medida em que a ciência passa a explicar COMO as
coisas acontecem, as pessoas passam a perguntar menos PORQUE as coisas
acontecem. Quanto mais a Ciência explica, mais a teologia e a metafísica perdem
espaço.
A Religião
Positivista tem, portanto, a Ciência como dogma; mas tem também, como todas as
outras religiões, um Culto e um Regime. O Positivismo entende que a Ciência por
si só é impessoal e as pessoas que se norteiam exclusivamente por ela tendem a
serem frias, calculistas e sem sentimentos maiores e mais nobres em relação aos
demais, contrariando, dessa forma, o princípio religioso do Positivismo, que é
o amor, o Viver para Outrem, representado pela mãe, expressão máxima do amor
desinteressado e altruísta. Amor que simplesmente existe e que é dado sem
exigência alguma de retribuição. E é justamente para não contrariar esse
fundamento religioso do amor por princípio, ao mesmo tempo em que tem a Ciência
como dogma, que o Positivismo tem as Artes como Culto. Esse culto positivista
pelas Artes desenvolve nas pessoas pendores altruístas, contrabalançando o
espírito de competitividade, próprio do liberalismo e mesmo da democracia, onde
o poder é buscado a qualquer preço, muitas vezes em detrimento da ética e da
moral. O Regime, por sua vez, é a ação do homem, tanto na sociedade como na
Natureza. Iluminado pela Ciência e lapidado pelas Artes, o indivíduo está
pronto para agir em prol do fim maior da sociedade, o Progresso, em seu sentido
mais amplo. O Positivismo substitui a crença teológica e a fé cega e não
comprovada pela demonstração científica. Deixa de lado o Porquê e, com base na
observação e no método científico, explica COMO. A Religião da Humanidade nos
ensina que devemos sempre agir pelo amor, mas esclarecidos pelo pensamento
científico, em busca do progresso científico, moral, ético, cultural e também
material da sociedade. Essa orientação final da Religião da Humanidade tem sua
expressão máxima no lema “O amor por princípio e a ordem por base; o progresso
por fim. Essa é a nossa religião; a Religião da Humanidade.