terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Consciência



O tema "consciência" sempre esteve envolto em mistérios. Uns dizem que o corpo é essencial para a existência da consciência, outros afirmam que ela  seria capaz de sobreviver ao corpo. Alguns outros, como o cientista Roger Penrose, professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra, defendem a ideia de que a habilidade da mente humana de compreender o mundo exterior poderia ser um fenômeno quântico. A teoria de Penrose, chamada de Redução Objetiva, teve pouco apoio dos pesquisadores da consciência, mas ajudou a aumentar essa aura de mistérios que envolve o tema.

Importante dizer que não existem mistérios de espécie alguma; mistérios nada mais são do que fatos ainda não explicados. A história da ciência e da filosofia indicam, de forma bastante clara, que qualquer tema, não importa o quão aparentemente misterioso seja, será um dia compreendido e explicado. Há que se dar tempo ao tempo, uma vez que nossa espécie é muito jovem neste planeta, a civilização mais ainda e a ciência, nesse contexto, não passa de um bebê. É preciso também ressaltar que o caráter de simplicidade de uma explicação só pode ser desejado e preferido se houver várias outras que expliquem a mesma coisa de forma mais complicada. Se não houver explicação mais simples, a complicada tem que ser aceita, caso consiga  resolver satisfatoriamente a questão levantada.


Dito isto, transcrevo trechos muito elucidativos de um artigo de Robert Matthews,  jornalista especializado em ciência e professor visitante da Universidade de Aston, Reino Unido, sobre tão apaixonante tema, publicado na revista Knowledge em julho de 2009:

"O primeiro passo é tentarmos definir o que vem a ser a consciência. É algo que todos dizemos possuir, mas cuja definição exata é um antigo desafio humano. A primeira definição funcional de consciência foi dada pelo filósofo inglês John Locke, com sendo "a percepção do que se passa na mente humana". No século XVII o filósofo francês René Descartes usou o que considerava uma lógica inatacável para explicar como surgiu essa percepção. Ele concluiu que a mente consciente é feita de elementos diferentes de cérebros e corpos, uma distinção hoje conhecida como Dualismo Cartesiano. A ideia de Descartes parte do princípio de que a mente consciente é essencialmente diferente do cérebro vivo e operante. Essa visão, de que a mente é mais do que atividade cerebral, não é mais aceita atualmente. Em 1994 o filósofo australiano David Chalmers, da Universidade do Arizona (EUA), disse que qualquer teoria para explicar a consciência deve, antes, relacionar a estrutura física e objetiva do cérebro à sensação subjetiva de consciência. Atualmente, os cientistas da área acreditam que os componentes chave da consciência estão em partes primárias do cérebro, como o tálamo e o tronco.

Pesquisas revelaram que a consciência, apesar de ser apenas uma pequena parte da atividade cerebral, demanda um esforço enorme para ser criada a partir das informações recebidas sensorialmente. Experimentos mostram que o tempo decorrido entre o estímulo externo e a formação da da percepção consciente é de cerca de meio segundo, mas esse lapso é "editado" pelo cérebro para mantê-lo imperceptível. O resultado é uma mente consciente que nos permite fazer mais do que simplesmente reagir aos estímulos externos, comos organismos simples fazem. Nossa consciência nos mune com um sofisticado modelo mental da realidade, que traz grandes vantagens evolutivas na batalha darwiniana pela sobrevivência em ambientes que mudam constantemente.

De modo simplificado, a consciência é a propriedade que possui a mente de estar ciente do mundo exterior e de seu processamento interno. A maior parte das sensações provinda dos sentidos, bem como a maior parte do processamento mental, se dá sem que se tome conhecimento do que ocorre. Somente é percebido aquilo que prende a atenção e o pensamento, só em parte, é acompanhado. Estar consciente é estar sabendo o que está acontecendo. No sono, desmaio, anestesia e morte, está-se inconsciente, no último caso, de forma definitiva. Ao se dizer que se está sabendo do que acontece, a primeira pergunta é "Quem?". Sim, qual é o ente que tem consciência do que ocorre em sua mente? Tal ente, denominado "eu", é o dono de sua mente e de seu corpo. Autoconsciência seria esta noção que se tem de si mesmo, e segundo as mais recentes pesquisas neurológicas, é uma ocorrência mental, portanto proveniente do funcionamento do organismo; natural sem ser material. A noção de si mesmo é dada por uma varredura constante que o cérebro faz do próprio organismo e do mundo, atualizando as informações sobre tudo o que está ocorrendo com o corpo, a mente e o mundo exterior. O cruzamento dessas informações permite que se tenha a noção da distinção da pessoa em relação ao resto e de que ela continua sendo ela mesma ao longo do tempo, mesmo modificando-se.
Percepção, pensamento e consciência são fatos distintos da mente. O pensamento é uma ocorrência que se dá na mente, como um sentimento, uma emoção, uma percepção, uma volição, uma evocação, uma memorização, um raciocínio etc. Mente nada mais é do que a entidade que decorre de um cérebro em funcionamento atual ou potencial. A mente não é o cérebro, mas não existe sem ele. A mente é um acontecimento que se estabelece devido ao funcionamento do cérebro e que depende inteiramente de sua constituição, estrutura e dinâmica. Assim, o pensamento é uma sequência de evocações de percepções, de associações, de sentimentos e de tudo o que o funcionamento do cérebro pode produzir. Note-se que o pensamento pode até mesmo ser inconsciente. A mente requer que o cérebro funcione e, portanto, consuma energia. Mas o pensamento não é energia, nem tampouco reações químicas. Não é matéria e nem energia. Pensamento pertence à categoria de realidades que denominam-se “ocorrências”, ou seja, pensamento é um processo que se dá na mente, um acontecimento, um evento. Para que tal evento ocorra é requerido o fornecimento de energia como, de resto, em todo processo orgânico. Esta energia é fornecida pela metabolização do alimento que se ingere.

Uma questão, contudo, é inteiramente pertinente: de onde vem o pensamento? O que desencadeia a ocorrência de um pensamento na mente? Várias coisas. Em sua origem, todo processamento mental provém das sensações que os órgãos dos sentidos levam ao cérebro. São os estímulos visuais, sonoros, térmicos, táteis, olfativos, gustativos bem como dos sentidos que percebem o equilíbrio, o posicionamento do corpo e o funcionamento dos órgãos internos que provocam as primeiras cadeias de transmissões de sinais neurais que se transformam em percepções, assim que interpretados. Em segundo lugar, o próprio cérebro, em seu funcionamento, evoca, por associação ou mesmo aleatoriamente, a percepção de imagens já registradas na memória. E as processa, produzindo novos resultados que passam a ser registrados. Esse fluxo de processamento neural é que é o pensamento. Ele pode se dar de modo consciente ou inconsciente, voluntário ou involuntário. Quando consciente, o “eu” (self) toma ciência da ocorrência. Nos sonhos e alucinações há uma emulação inconsciente da consciência, que, inclusive, pode acarretar respostas motoras (sudorese, micção e mesmo, locomoção, além do movimento dos olhos, característico do estágio REM do sono). Dependendo de seu modo de ser, o pensamento pode ser um raciocínio, uma emoção, um sentimento, uma decisão. Em todos estes casos, o processamento mental desencadeia alterações somáticas (hormonais, vago-simpáticas ou outras), como excitação, taquicardia, sudorese, rubor, palidez, secura na boca, vaso constrição ou dilatação. Todas essas alterações são percebidas pela varredura dos sentidos e registradas na memória como parte da ocorrência, de modo que o processamento mental não é apenas cerebral, mas envolve todo o organismo.

Em 1960 uma descoberta surpreendente: temos consciência de apenas uma pequena fração do que nosso cérebro percebe. Uma equipe de pesquisadores, chefiada pelo neurologista norte-americano Benjamin Libet, aplicou estímulos leves à pele de pacientes que haviam passado por neurocirurgias. As medições de eletroencefalogramas revelaram que os cérebros detectaram os estímulos, mas os pacientes, porém, disseram que nada sentiram. O mesmo ocorreu com estímulos mais fortes, aplicados durante menos de 0,5 segundo - enquanto os cérebros os detectavam m os pacientes nada sentiam conscientemente. Descobertas similares foram feitas a partir de estudos da visão. Nossos olhos recebem a informação a uma taxa de aproximadamente um megabyte por segundo, mas nossa consciência, no entanto, parece ignorar quase tudo. A enorme disparidade entre a informação recebida e a sensação consciente sugere que o cérebro processa uma quantidade imensa de estímulos sensoriais inconscientemente, destilando-os antes que os notemos.

Tentativas de medir esse lapso de tempo levaram a descobertas surpreendentes sobre a natureza da consciência que são, talvez, as mais importantes já feitas. Em 1976 um grupo de pesquisadores, liderado pelo neurologista alemão Hanz Kornhuber, decidiu realizar um experimento que mediria quanto tempo transcorre entre a decisão consciente de se mover um dedo e a execução, de fato, do movimento. 

A velocidade dos impulsos nervosos sugeriria que tal tempo ficaria em torno de 200 milissegundos (ms), similar a dos reflexos. No entanto, o atraso descoberto foi muito maior - o que, pelo menos, corroborava a ideia de que qualquer fenômeno envolvendo a consciência necessita de muito processamento por parte do cérebro. Os pesquisadores também descobriram que a atividade cerebral começava cerca de 800 ms antes do paciente dizer que havia decidido conscientemente mover um dedo.

Essas descobertas tiveram implicações profundas na noção de livre arbítrio, pois sugerem que nossas ações não são iniciadas por nossa mente consciente, mas pelas atividades cerebrais não-consciêntes. Assim, o livre arbítrio ficaria limitado à nossa decisão consciente de não agir como foi determinado pelo nosso inconsciente.

O Teatro da Mente
A noção de consciência como um modelo de realidade é coerente com a ideia que temos de nossos cérebros criando uma espécie de teatro mental. Em 1988, o psicólogo americano Bernard Baars usou essa ideia para criar a teoria da consciência de "Espaço de Trabalho Global" (ETG). Segundo o conceito de ETG, os processos de consciência são aqueles que estão sob os "holofotes" da atenção mental do momento, enquanto outros permanecem fora de foco, armazenados na memória até se mostrarem necessários. Enquanto isso, processos inconscientes estão acontecendo nos "bastidores" - e também formam a "plateia", reagindo ao que está no centro das atenções. O ETG não é uma simples metáfora. Ele encontra base nos resultados que vêm emergindo dos maiores avanços já obtidos no estudo objetivo do processo de consciência: o escaneamento cerebral. Técnicas como a ressonância magnética funcional de imagem dão aos pesquisadores mapas detalhados e em tempo real da atividade cerebral, permitindo que estes sejam relacionados aos processos de consciência. Isso levou ao incremento dos estudos, em que partes específicas do cérebro eram relacionadas à percepção consciente. A região central do cérebro chamada de tálamo, por exemplo, parece ser crucial para trazer um estímulo sensorial ao "holofote" da atenção consciente, enquanto o córtex ventromedial próximo à região frontal do cérebro parece criar a nossa ideia de que a vida tem algum sentido.

Mesmo com todo o avanço científico ainda não é possível explicar os maiores "mistérios" sobre a consciência. Por que nós a possuímos? Que vantagens ela nos traz? Somos capazes de ser totalmente conscientes?

Uma explicação possível está na ideia de que a consciência seria um meio para criar um modelo mental de realidade. Qualquer organismo com tal modelo pode fazer mais do que apenas reagir a estímulos e torcer para que a reação seja rápida o suficiente para escapar dos predadores. Ele pode usar o modelo mental da realidade para prever as ameaças e oportunidades no "mundo real" - libertando-se das limitações dos reflexos não conscientes, sem precisar andar por aí às cegas, esperando que seus reflexos o mantenham a salvo, o que é uma vantagem evolutiva enorme.

Essa visão, por sua vez, sugere que questionar se um organismo é ou não consciente pode ser a abordagem errada. A consciência pode ser uma questão de graduação - um inseto, por exemplo, teria um modelo de realidade consideravelmente menos sofisticado comparado ao de um humano. Em relação a vários aspectos da consciência, as respostas definitivas ainda estão muito distantes. Há, entretanto, uma sensação cada vez maior entre os pesquisadores de que estaríamos mais perto de solucionar o "mistério" de como 1.400 gramas de tecido pegajoso podem nos dotar de uma inexplicável, porém única, percepção da própria existência".






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