Escravos da Esperança: Súditos
ou Cidadãos
Arthur
Aveline
“Direitos do Homem, Democracia e Paz são três
momentos necessários do mesmo movimento histórico: sem Direitos do Homem
reconhecidos e protegidos não há democracia; sem democracia não existem
condições mínimas para a solução pacífica dos conflitos”.
Norberto Bobbio
Esses
três pilares, expostos por Bobbio na introdução de sua obra, A Era dos
Direitos, são fundamentalmente os pilares do Estado Democrático de Direito. É
ambição de todos uma sociedade democrática, calcada no direito e na paz social.
A razão, nesse contexto, é fundamental. Somente através da razão é possível
elaborar e interpretar o Direito, que por sua vez está intimamente ligado à
noção de Poder, que só se sustenta se for legítimo e legal. O Estado
Democrático de Direito só pode assim ser chamado se preencher esses dois
requisitos. Daí decorrem as relações entre Democracia e Direito; Direito e
Razão; Razão e Paz; Paz e Direitos Humanos.
Os
Direitos Humanos, em linhas gerais, são o direito à vida, o direito às liberdades
fundamentais e os direitos sociais que permitem a sobrevivência digna. São os
direitos que asseguram ao cidadão a necessária proteção ao abuso estatal. São
os direitos que pavimentam o caminho de uma sociedade em busca da
não-violência, da solução pacífica dos conflitos, atingida sempre por meio do
direito, com base na razão, edificando a democracia. Até é possível haver
Direito sem democracia, mas é impossível haver democracia sem Direito.
Por
outro lado, o respeito às ideias dos outros, a tolerância e o combate ao
fanatismo são, por sua vez, o alicerce dos Direitos Humanos. É preciso
compreender antes de discutir e discutir antes de condenar. O fanático pula
essas etapas e condena previamente. O fanático não tolera o pensamento diverso
talvez por não compreender antes de discutir. Fácil perceber que o diálogo é o
instrumento básico nessa equação e o motivo pelo qual o fanático jamais será um
democrata. A prática do bem exige reflexão e o mal é, por conseguinte, fruto da
irreflexão, da falta de diálogo, da incompreensão.
A
construção de uma sociedade democrática passa pela construção dessa opção. O
racionalismo e a reflexão são os instrumentos que possibilitam essa construção
diária de uma sociedade democrática, mais justa e igualitária.
Cresci
nos anos 70. Tempos difíceis, em que palavras como liberdade, democracia,
direito, paz e razão eram verdadeiros palavrões, que só podiam ser pronunciados
a boca miúda, entre amigos de confiança ou junto à família. Nas escolas,
fábricas, praças e ruas, estádios de futebol e reuniões de trabalho esses temas
eram proibidos. Vivia-se numa sociedade em que reinava a violência estatal e a
censura ao pensamento. Uma sociedade que ignorava e desprezava valores como
tolerância e Direitos do Homem. Cresci assistindo à luta daqueles que, por não
se conformarem com esse estado de coisas, arriscaram suas vidas e a vida de
seus familiares por um Brasil mais justo e democrático. Presenciei, inclusive
no seio da minha família, o sacrifício de sonhos e de perspectivas de vida por
esse ideal de liberdade. Enquanto grande parcela da população, premida pelo
medo, optou pelo silêncio obsequioso, esses heróis colocaram suas vidas em
risco (muitos pereceram nessa luta) em prol de uma sociedade livre e
democrática.
Nos
anos 80, já adolescente, pude finalmente fazer minha parte por essa sociedade.
A campanha das Diretas levou o Brasil para as ruas (acho muito engraçado quando
hoje uma pequena multidão se reúne em algumas capitais e a grande imprensa fala
“na maior manifestação da história”). A pressão popular, apesar do regime
militar estar ainda vivo e atuante, foi enorme e, mesmo que a emenda que
restabeleceria as eleições diretas em todos os níveis da administração pública
não tivesse sido aprovada, aquele movimento acordou o Brasil, fazendo com que em
poucos anos tivéssemos uma nova Constituição que finalmente assegurava os
Direitos do Homem, a Democracia, a Razão e promovia o caminho para a construção
da tão sonhada paz social.
Hoje,
passados mais de trinta anos desses acontecimentos, a sombra do obscurantismo
novamente se abate sobre o país. Parcela da classe média, justamente a parcela
mais abastada, regrediu e começou a se comportar como nos anos 60, colocando em
seu discurso os mesmos chavões de família, tradição e propriedade. Midiotas
foram às ruas pedir para serem tutelados politicamente pelas forças armadas; bandidos
com contas na Suíça foram alçados à condição de heróis apenas por apoiarem um
golpe político travestido de remédio constitucional. Os fantasmas do centrão e
da bancada ruralista, que tanto assombraram a constituinte no final dos anos 80,
saíram de suas tumbas e tentam novamente ganhar vida. Tudo porque hoje os
doutores não são apenas filhos de doutores, mas também filhos de faxineiras,
pedreiros, motoristas e zeladores. Tudo porque os aeroportos também passaram a
ser frequentados pelos oriundos da senzala e não somente pelos senhores do
engenho. Mas não passarão. Não passarão porque hoje o povo não é mais súdito,
somos cidadãos e nenhum de nós voltará à senzala. Hoje a sociedade civil
organizada, estudantes, sindicatos, associações, não aceita o retrocesso, não
admite a cassação de direitos. Hoje somos escravos apenas da esperança, a
esperança que venceu o medo e se tornou realidade. A Era dos Direitos, calcada
nos Direitos do Homem, na Democracia e na Paz, chegou para ficar, apesar da
gritaria dos conservadores inconformados. Eles que se acostumem.
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